"Sintomas do cancro da cabeça e pescoço são facilmente desvalorizados", alerta médica

Todos os anos surgem cerca de 3.000 novos casos de Cancro da Cabeça e do Pescoço em Portugal. Apesar da sua gravidade, ainda existe pouca consciência acerca deste tipo de tumor que afeta cada vez mais jovens. Falámos com a médica Ana Castro, especialista em Oncologia. Hoje é o Dia Mundial do Cancro da Cabeça e Pescoço.
A maioria dos casos de Cancro de Cabeça e Pescoço estão relacionados com algum comportamento de risco?

O cancro de cabeça e de pescoço está relacionado com o consumo de álcool e tabaco, bem como com maus cuidados de higiene oral. Os fumadores, seja de cigarros, charutos ou cachimbos, inalam cerca de seis mil substâncias resultantes da combustão. A nicotina, em si, não causa cancro, mas, de forma indireta, contribui para a formação de tumores malignos em conjunto com as 70 substâncias cancerígenas existentes no fumo do cigarro.

No que toca ao consumo excessivo de álcool, existe uma forte probabilidade deste criar irritação e danificar os tecidos.

Onde pode surgir o Cancro de Cabeça e Pescoço?

O Cancro de Cabeça e de Pescoço agrupa o cancro da laringe, o cancro da cavidade oral, cancro da língua, cancro da orofaringe, cancro das glândulas salivares, cancro da hipofaringe e das fossas nasais.

São os tumores localizados nas vias aerodigestivas superiores.

Que outros comportamentos podem levar a este tipo de cancro?

A infeção por Papilomavírus Humano (HPV) está também relacionada com os carcinomas da cavidade oral e orofaringe, sobretudo em doentes mais jovens e sem outros fatores de risco.

A razão da incidência da relação entre o HPV e o cancro de cabeça e pescoço estar a aumentar a nível mundial deve-se à prática de sexo oral, sem proteção e com múltiplos parceiros.

A tendência que se tem verificado com este tipo de tumores, a aparecer em indivíduos mais jovens, está relacionada com o HPVPorque é que há cada vez mais jovens (que não fumam nem bebem) a ter este tipo de cancro?

A tendência que se tem verificado com este tipo de tumores, a aparecer em indivíduos mais jovens, está relacionada com o HPV. Como as infecções têm vindo a aumentar de forma não justificada, esperamos que com a vacinação possa vir a diminuir a sua incidência, embora neste momento apenas temos vacina gratuita e no PNV para as meninas.

Quais são os sintomas mais comuns desta doença?

Os sintomas do cancro da cabeça e pescoço são facilmente desvalorizados. Podem surgir sintomas como dor de garganta, alterações da audição e nariz entupido apenas de um lado, feridas na boca e aftas que não cicatrizam ao fim de três semanas, rouquidão.

Existe algum sintoma descurado pela maioria dos doentes e que é um importante sinal de alerta?

As feridas na boca, sobretudo em doentes mais idosos com próteses mal adaptadas, devem ser um sinal de alerta que deve motivar a ida ao médico.

O facto de apresentar um dos sintomas durante três semanas deve chamar a atenção das pessoas e levá-las a falar com o seu médico. Pode ser uma dor na língua, uma lesão, uma úlcera ou uma afta. Alterações na voz, como uma rouquidão persistente, uma hemorragia, nódulo no pescoço. Ou seja, todos os sintomas devem ser um sinal de alerta e é aqui que o problema reside. Como são confundidos frequentemente com outras condições benignas o diagnóstico chega tardiamente.

Como se previne este tipo de cancro?

Mantendo uma boa higiene oral, não fumando e não bebendo bebidas alcoólicas em excesso. A vacina do HPV antes de iniciar a vida sexual também é uma boa forma de prevenir a doença.

Qual é a taxa de sobrevivência em Portugal?

A taxa de sobrevivência está relacionada com o estádio e com o diagnóstico e, infelizmente, em Portugal ainda diagnosticamos este tipo de cancro em estádios muito avançados.

Logo a taxa de sobrevivência aos cinco anos é de apenas 20% quando em estádios precoces a mesma sobe para 80 a 90%.

Entrevista parcialmente publicada a 11 de julho de 2018.

Publicado por: Saúde